quinta-feira, 18 de abril de 2013

PRISÃO NELE!



Rebentou. Chamaram-no João, somente João. Por que era um nome fácil de falar e simples como o barraco em que nasceu. Mas podia muito bem chamar-se Chico em homenagem à um tal de Buarque que muito antes dele nascer já cantara a história do guri. Por que ele nasceu com cara de fome e se identificou com seus 5 irmãos mais velhos, todos com a mesma cara.

No tamanho, também eram quase iguais, bem mirradinhos. O mais velho, nascido cinco anos antes, não era uma parte de metro maior do que João. A mãe sempre dizia que criança que não come não cresce, mas nunca tinha muita coisa no prato, quando tinha. Então era fácil comer tudo, mas era difícil crescer. Todos iguais. De longe não dava nem pra dizer quem era quem.

Nas ruas, ele e os irmãos partilhavam do mesmo sentimento de invisibilidade, mais ainda depois que a mãe se foi e os deixou ali sentados na calçada, órfãos, com cara de fome e ainda por cima invisíveis. A perder eles nada tinham além de uns aos outros e mesmo assim, por pouco tempo, já que um a um os irmãos de João foram se perdendo no mundo.

Pro barraco que morava com a mãe ele não poderia voltar, não tinha como pagar o aluguel. Tentou vender bala no semáforo, mas quando conseguiu juntar seu capital de giro mendigando moedas na praça, descobriu que todos as esquinas da cidade já tinham dono e ele era pequeno demais para brigar por seu espaço. O que conseguiu foi um cantinho escuro e úmido embaixo do viaduto.

Foi um tal de Zé que o acolheu, em troca da estadia nada aconchegante. João lhe prestava certos serviços que o menino não tinha certeza se a mãe aprovaria, ela era evangélica e tudo pra ela era pecado. Mas era o que tinha pra hoje e pros próximos meses que se seguiram: Zé, o viaduto, a cara de fome e a invisibilidade.

Desde muito novo aprendeu que a vida é carrasca. Que a barriga ronca e que as pessoas que passam por ele com suas maletas, com casacos que protegem do frio, tem sérios problemas de audição e de visão, por que não o ouvem e não o veem. Talvez seja o vidro do carro que sempre se fecha quando ele desponta na marginal.

As pessoas não sabiam, mas ele tinha mais medo delas do que elas dele. Afinal de contas, ele não sabia o que elas eram. Pra ele, deviam ter vindo de outro planeta, por que estavam sempre cheias de roupa, comiam sentados em cadeiras, as vezes em uma vitrine... a comida deles tinha um bom aspecto, não deveria ser como a sopa de fubá da mãe dele... mas ele nunca saberia.

O mundo pra ele era visto sempre por detrás do vidro... ele enxergava, mas nunca podia tocar. Era como olhar lá da praia o morro, lá de longe... nessa distância não dava pra saber o que acontecia. E parecia que o lugar onde joão nasceu era um imenso pote de confetes coloridos. Os barracos de tabuas desiguais, amontoados uns aos outros, com suas antenas parabólicas, ao por do sol, é que davam esse efeito. 

Ele pensou que um dia queria saber que gosto confete tem.Queria tanto que ao encontrar uma porta aberta, dentre tantas vitrines lacradas, ouviu o apelo de seu estômago. Aproveitou que era invisível e o vacilo do homem de preto parado na porta, mas não sabia que ao adentrar aquele lugar tão cheiroso e tão cheio de gente, imediatamente perceberiam que ele não era dali.

Enxotado... aos 11 anos de idade ele já conhecia o gosto da humilhação, fosse lá o que significasse isso. Eram muitos gostos estranhos à boca de um menino que não mastigava nem digeria quase nada. A raiva lhe fazia sentir mais homem e foi com esse sentimento dentro de si que achou um saco de confetes na mão de um menino mais magro que ele... 

Pela roupa sem furos e pelos tênis de luzes piscando, supôs que ele teria muito mais do que um único saco de confetes coloridos. Achou que não o faria falta aquele. Empurrou o menino dos pés que brilhavam, a cabeça foi direto ao chão, mas João não se importou. Em meio aos berros de uma senhora ele juntou os confetes e achou que não faria mal se levasse o tênis bonito também.

Desde que ele vira o mar pela primeira vez e sentira as ondas lambendo a ponta de seus dedos, João não sentira uma alegria tão grande. Ele finalmente sabia que confete era melhor que fubá e que os pés do menino que ficou no chão eram quase do mesmo tamanho que os dele.

Falando nele, o menino que foi ao chão não teve a mesma sorte que João no fim das contas teve. Foi só o tempo de João esvaziar o saquinho colorido pra ser condenado à reclusão em uma cela apertada que dividia com uma porção de homens bem parecidos com o Zé do viaduto. Bem mais velhos que ele... bem mais sabidos da vida do que ele. A maioridade penal não existia mais. E ele não tinha chance alguma.

Era o fim da pseudo-vida de João Cara de Fome. Que nasceu sem pedir e desde então apenas desandou na vida. A oportunidade ele nunca teve, a única porta aberta que encontrou foi a do restaurante de onde tinha sido enxotado. Não sabia como as coisas funcionavam. Não conhecia internet nem sabia onde morava Deus. 

Escola ele sabia o que era, e tinha até tentado entrar, diziam que lá tinha comida, mas nunca teve vaga pra ele. Sabia que tinha um tal de Código Penal, por que na hora do julgamento alguém falou que era ele que decidia as coisas, mas pra ele não fazia sentido o que o tal código falava, por que nunca tinha aprendido a ler.

Um dia pareceu-nos que a melhor opção para João era a tal bendita prisão. Que não importava que tamanho ele tinha. Se tinha tamanho pra matar uma criança já tinha tamanho pra ser colocado lá. "Ladrão, Assassino, %*§&#"...Pros algozes de João parecia não importar que ele só queria experimentar o gosto dos confetes coloridos. 

Importa apenas que hajam grades de segurança máxima. Que em cima dos muros hajam cacos de vidro, que a cerca seja elétrica com voltagem suficiente para torrar os menores ditos "infratores" de todos os tamanhos e mantê-los fora do campo de visão. Afinal, são delinquentes. Plenamente responsáveis pelo que fazem. Plenamente responsáveis pela vida que nem queriam ter.

É preciso apenas alertar essas pessoas que não se importam com João nem com as histórias da vida que ele não teve, que é preciso contratar mais pedreiros, engenheiros e construir mais muros, mais prisões, colocar mais grades... a cela de João está cada vez mais apertada... e do jeito que as coisas vão, daqui um tempo teremos mais gente do lado de dentro do que de fora do muro.

João mesmo, só queria experimentar o tal do confete. Conseguiu. Era bom!

21 comentários:

  1. Vc está de parabéns meu amor...mais um excelente texto.
    Te amo!

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  2. Ana...
    Mais um ótimo texto!!!

    Saudades
    bjs

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  3. Então minha querida, é um assunto extremamente delicado, e, temo que as pessoas estão por aí expressando suas opiniões de maria-vai-com-as-outras sem o minímo de reflexão sobre essa problemática!
    Na realidade, tendo analisado os dois lados da questão, vejo da seguinte forma: quem protesta quanto a ideia de que resolve-se o problema simplesmente reduzindo a maioridade penal e trancafiando um menor 'delinquente' numa penitenciária, tem razão.
    Por outro lado, aqueles que exigem que as penas sejam mais severas (também) para esses criminosos juvenis, também tem razão.
    O que está errado nessa discussão toda é, novamente, a queda de braço, entre “esquerda e direita” - a galera defensora do proletariado não debate com a galera defensora dos interesses das elites, ricos, abastados brancos, e vice-versa. Um estúpido desperdício de forças. Uma grande bobagem na verdade, porque não se trata mais disso, não é mais uma luta de classes, entre forças que defendem, uma os interesses da classe trabalhadora e outra, os interesses dos empresários, vide as negociatas feitas com bilionários pelo PT.

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  4. ão fugindo do foco, é fato que a criminalidade juvenil tem aparecido em estatísticas alarmantes nos noticiários, nos boletins policiais, e para testemunhar isso, não é preciso morar em São Paulo ou Rio, não é preciso estar nas grandes metrópoles pra constatar que os índices de criminalidade nos últimos anos refletem a informação de que sim,“nossas crianças” foram acometidas de uma grave doença social. Não por culpa delas, por culpa do Estado, em 1º lugar, em seguida da família e da sociedade.
    Nas páginas policiais todos os dias a gente lê e vê que menores, por vezes até impúberes, de arma em punho se lançam a cometer as mais diversas atrocidades, leia-se aqui assassinatos a sangue frio. Eu mesmo já fui vítima de assalto por dois guris que não deveriam ter mais do que 15 e 16 anos, piazotes minguados armados e ameaçadores sim.

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  5. O pior é que não se trata apenas de delinquentes miseráveis, existem, e isso não é novidade, os jovens que delinquem mesmo estando em condições financeiras confortáveis. Isso é fato. O filhinho de juiz que mete fogo num mendigo tá revoltado com o quê??? Talvez com sua família de porcos que usam e abusam do luxo e do poder que conquistaram, sabe-se lá às custas de quanta safadeza e imoralidade.
    Comentamos que a gente vive uma época de barbárie, tudo isso decorre da sensação direta da impunidade, um descompasso entre a lei e a realidade. O nível de maturidade das pessoas de hoje é absolutamente diferente daquelas de outrora, de saudável lembrança em que o contato de violência que tínhamos era as punições paternas por nossos erros.
    O Estado tem como função punir, porém apenas o encarceramento não é capaz de modificar a criança infratora, que hoje já podemos chamar de homem. Não é a simples redução da maioridade que irá por um fim ao caos social violento por que passamos. Como a própria norma constitucional assevera, as “crianças” têm direito a educação, ao lazer, a saúde, a alimentação, em síntese deve ser garantida a dignidade.

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  6. Não é o enquadramento na norma criminal apenas, mas um complexo de mudanças de atitudes dos administradores públicos que podem influir na modificação da criminalidade.
    Quando se reduz a maioridade penal, tem-se apenas um paliativo que certamente diminuirá os índices criminais, porém não é a solução que buscamos.
    Faltam investimentos do aparelho público no ser humano, falta ainda às famílias conscientizarem-se da urgência em cuidar de seus filhos. Falta a disseminação de uma política pública de controle de natalidade, principalmente nos guetos mais miseráveis. Por fim, pode-se afirmar que a criminalidade é o espelho da falta de ação preventiva e não repressiva.

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  7. Sou a favor sim da redução da maioridade penal, mas não no estado em que se encontra o sistema penitenciário neste país. Antes disso é preciso reformular toda a legislação penal, todo o processo penal em que se submete um detento.
    Tanto para menores quanto para maiores, nosso sistema penal é uma vergonhosa afronta a dignidade humana. Seja para o mais atroz criminoso.
    A detenção deveria ter por objetivo, reinserir o indivíduo, que infringiu a lei, à sociedade.

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  8. Reeducar, encontrar meios de melhorá-lo, de fazê-lo refletir sobre as escolhas que fez, dando-lhe um acompanhamento psicológico, dando-lhe a oportunidade de conhecer filosofias diferentes de vida, para que possa encontrar a que mais lhe apetece. Reinserção através do trabalho, da chance de aprender uma profissão e assim ter perspectivas para com o seu futuro, com o que fazer da sua vida.
    Além de tudo isso, depois de cumprida a pena, não é só soltá-lo de volta ao mundão e “te vira nego”, é preciso ter políticas de acompanhamento contínuo, além de já garantir um posto de trabalho para este indivíduo.

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  9. Outra coisa, é o Estatuto da Criança e do Adolescente que precisa ser reformado, e não sei como ainda não se sensibilizaram pra isso (é incompetência pra encher o universo), eis aí um outro 'fazedor' de marginais, além das famílias desestruturadas, etc e etc.
    Basta ter a experiência de se dar aula numa escola pública e logo você vai entender do que se trata.

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  10. Pois é minha caríssima, não é tão simples e também nem tão impossível, basta começar de algum ponto. Pra mim e pra muita gente esclarecida, começa nas 'N's reformas que já deveriam estar em curso neste 'país das bananas'. MAS ONDE ESTÁ O POVO PRA EXIGÍ-LAS?
    Basta dessa vergonhosa e dissimulada disputa pelo poder entre direita e esquerda. Tudo que se deveria fazer é sentar e conversar. Reconhecer um as conquistas do outro e unir as forças. Dar continuidade ao que foi bom e melhorar o que não foi tão bom assim.

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  11. Debater, discutir ideias e encontrar soluções para melhorar a vida da população, é pra isso que deveriam servir essa corja de aves de rapina engravatadas, que na surdina, asseguram benefícios e regalias imorais, depois justificadas com cinismo.
    Enquanto isso, o povo está satisfeito com sua cesta básica garantida, com a Copa do Mundo que agora “é nossa”, com a cervejinha no boteco todo dia pra relaxar, depois de voltar pra casa esmagado, muitas vezes surrupiado, como aqui em PG, num transporte coletivo. Extorquido pela enxurrada de impostos que desafiam a inteligência de qualquer economista meia boca. “Ah tá ruim mas tá bom, poderia ser pior.”

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  12. E estes são os caminhos de nossa brava gente, programada já há muito tempo, pelos porcos oligarcas que ainda mandam neste chiqueiro, pra serem despolitizadas e ignorantes. É assim, dessa forma que eles precisam da gente, capazes e aptos a votar, mas incapazes de reagir, de questionar ou mesmo de ser crítico e brigar por um direito, ou, voltando ao tema, de assumir um erro.

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  13. Somos uma nação de gente batalhadora e guerreira sim, mas também de gente preguiçosa, que nem passa perto de um livro, que prefere a mesa de sinuca de um boteco, de gente que fura fila, que estaciona o carro na faixa de pedestres, que acha melhor ser 'esperto' do que ser letrado, de gente desprovida de um senso crítico mais apurado, que acha que tudo precisa ser provido pelo estado (incompetente, ineficiente, ineficaz, inchado e que promove lambanças apoteóticas com o erário público, como se tirasse recursos de uma fonte inesgotável).
    O problema não é a maioridade penal, nem o Marcos Feliciano, nem o Renan Calheiros, nem o cinismo dos mensaleiros condenados, é sim da postura dessa nação como um todo.

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  14. ( PS:. Eu me incluo, porque deveria tirar a bunda da cadeira, nem que fosse apenas eu, sozinho, com um ovo podre numa mão e um cartaz noutra, deveria ao menos ter coragem de me despir dos achismos em relação a opinião alheia e ir protestar na câmara municipal de minha cidade, quando necessário).

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    1. Era o que eu buscava, um comentário perspicaz, e me vem esse texto imenso... acho que deverias ter um blog querido amigo, pra que expusesses ao mundo sua opinião sempre tão conveniente.

      Sabes que compartilho dessas tuas ideias e hoje mesmo as discutiremos em uma mesa de bar... quem sabe bolamos um plano para por fim as orgias políticas desse país.

      Eu confio no nosso potencial!

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  15. dois lados de um polígono de faces infinitas apresentadas com louvor! Concordo com você, Ana. Acho que o seu texto pode despertar no leitor empatia, uma das qualidades que julgo mais importantes na vida em sociedade e que está cada vez mais rara. É preciso colocar-se no lugar do outro quando se busca a justiça. E concordo contigo também, Ramirez, quanto às mazelas que acometem nossa sociedade, qual, fossem um vírus em estado de pandemia, desumanizando os contagiados...Mas eu consigo espiar ao longe um futuro melhor e acredito nele com todas as forças! E ainda que com passos de formiga, descobrindo e vivenciando meus valores, dividindo-os e fomentando discussões, estou trabalhando, assim como vocês, para que quem vem depois de mim possa viver num lugar melhor!

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    1. Eu acredito no futuro próspero dessa batalha diária... :)

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  16. Muito bem Talita, é assim que devemos prosseguir. Otimistas e esperançosos. Há sim um futuro melhor no horizonte, mesmo que distante. Bom, talvez nem tão distante assim. Afinal, de que valeria lutar para melhorar algo se não acreditássemos que é possível alcançar o que almejamos. E Ana, é isso aí, trata-se de uma batalha diária realmente. E a boa notícia é que, se concluímos que evoluir é o contrário de toda a injustiça que estamos acostumados a engolir, de todo engano que se comete tentando chegar a um ponto melhor, podemos então ter certeza, um dia não haverá saída para quem não compartilha dessa evolução. É o curso natural de tudo que viceja, não é? Melhorar-se, progredir. Por isso é verdadeiro acreditarmos num futuro próspero e naquela idéia primordial que nos ensinaram quando eramos pequeninos: o bem sempre vence o mal. =)

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  17. Esperamos por mais textos inspirados e inspiradores, minha caríssima! Manda ver aí!!!

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    1. ..."o bem sempre vence o mal..." - Amo vocês, seres iluminados!

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