quinta-feira, 21 de junho de 2012

Por que o espanto?

Venus de Medici
Hoje a tarde dei de cara com um artigo da jornalista Eliane Brum,  texto desta última segunda-feira, na coluna semanal que ela alimenta no site da revista época, de título: "Por que a imagem da vagina provoca horror"... pois curiosa que sou, já quis saber de que vagina ela estava falando... quem foi a sapequinha que saiu por aí expondo a perereca e assustando as moçoilas de família e os desavisados? Seria a Vera Fischer novamente? Não... Era apenas arte, digo "apenas" não no sentido depreciativo, mas no sentido de que não era nenhuma dessas xoxotas hipervalorizadas dos tempos de hoje, pode tirar o cavalinho da chuva... ela não era umas dessas peladinhas nem tão pouco enfeitadinha com penduricalhos. A dita cuja era pós-coito, anônima e peluda. Uma pintura de Gustave Courbet, o quadro "A origem do mundo" (L’Origine du Monde, 1866).

Desde sua execução este quadro já habitou casas em vários cantos da Europa, e os moradores do velho continente, embora a quisessem por perto, quase sempre a escondiam por detrás de cortinas ou outras pinturas menos chocantes. Ora... é apenas uma vagina. Compreendo que nem sempre ficamos ali namorando as nossas e que nem sempre ou quase nunca elas chegam ao estado de cansaço e exaustão retratado por Courbet... ainda por cima, exposta... mas é só uma vagina. Concordo que o nome já é suficientemente feio... como quaisquer de suas variações (boceta, xoxota, pepeca, perereca, perseguida... aiuHAIUhaiuh... vulva?)... mas como disse a Jornalista à sua faxineira perplexa com aquela imagem: “Mas, Emilia, metade da humanidade tem vagina – e a humanidade inteira saiu de uma vagina! Por que você acha feio?”

Adão e Eva. Mabuse, Século XVI

Hahahahaha... fiquei imaginando a cena... Emília, com os cabelos longos escondidos em um coque, saia cobrindo os joelhos... de súbito larga o balde, esparramando a água com alvejante no carpet rubro do chão do escritório de Eliane Brum e fica lá, a gritar para o eco daquela vagina arreganhada e em frangalhos... Meu Deus... eu repito, é só uma vagina... eu sei que ela sempre ficou cobertinha, escondidinha... desde Eva com sua folha de parreira... mas ela sempre esteve lá. Ora Emília, nos tempos de hoje, que as moças não temem em mostrar suas partes mais íntimas, ainda que sob as pinturas de Hans Donner, mas em REDE NACIONAL... brilhando na telinha como se estrela fosse...

Que tipo de vagina é essa dos carnavais de hoje que se acha mais importante e mais digna da fama do que a vagina peludinha de Coubert? Ora... por que berramos de medo e pavor para L'Origine du Monde e aplaudimos da arquibancada as que passam na Sapucaí? E mais, como enchemos de notinhas verdes as que estampam as capas de revistas que enfeitam as paredes das bancas de jornal e as gavetas secretas dos adolescentes e dos maridos...? E rejeitamos a cansada e trabalhadora vagina de Courbet? A condenamos a escuridão? Pois bem, cabe aqui uma bela analogia...

Marcha das Vadias de Porto Alegre/2012. Foto de Ana Rita Dutra.

As cortinas somos nós hipócritas a esconder a vagina... ironicamente, a nos chocar com mulheres que protestam mostrando os seios para provar ao mundo que o corpo é delas e de mais ninguém... que querem a liberdade de dispor do próprio corpo sem medo de que outros venham dispor do que é delas contra suas vontades ou desejos, agindo como se direito tivessem. Por que ao invés de nos espantar não nos unimos a causa dessas vaginas revoltosas que só fazem proteger honestamente sua própria área útil, seus próprios direitos de não pertencer a mais ninguém além delas mesmas?

Não estou a dizer que sou a favor da super exposição do corpo... acho mesmo que cobrir, para revelar pode ser muito mais excitante, o que estou falando é justamente acerca do contrário, o que contesto é essa sexualização desnecessária do corpo... a vagina de Coubert, na minha concepção, estava lá em um ato de protesto... embora tenha sido encomendada como objeto de desejo (Vide Artigo da Eliane Brum para entender)... não merecia ser amaldiçoada e vislumbrada as escuras, não merece ser endemoniada, rotulada de pecado... Ela prevaleceu em protesto... agora exposta alegremente no Museu D'Orsay em paris, sem cortinas e sem máscaras.

L'Origine du Monde - Gustave Courbet

Enquanto as vaginas carnavalescas continuarão a se preparar para o próximo desfile ou se maquiar para o próximo flash, livres, leves e soltas... sem que isso nos cause espanto, afinal, acabamos achando normal a materialização e comercialização da vagina das celebridades... Já as nossas continuaram encobertas... escondidas e temerosas... tendo que cumprir sua função social... aparições públicas só entre quatro paredes e muito bem apresentáveis, cheirosas, perfumadas e sem os odiosos pelinhos da vagina de Coubert. Feliz e livre mesmo é a vagina do Courbet que não tem mais preocupação alguma na vida nem com a violência das ruas... nem com os padrões estéticos atuais.

4 comentários:

  1. O corpo, em minha humilde opinião, é e sempre foi o melhor álibe que possuimos, nosso corpo é nossa ferramenta, nossa materia prima...
    é o meio q utilizamos para atingir os fins que objetivamos intelectualmente e sincronizadamente...
    o texo desmistifica os tabus e padros sociais, objetivando justamente a simplicidade e a pureza das nossas formas.

    ResponderExcluir
  2. Genteinnn amei!!
    Agora tenho de ver a "vagainas" de Courbet!
    Nossa ela é quase a floresta amazonica!!!
    uahUHAUHauH
    BRINCADEIRAS A PARTE, COMO A GENTE COMPLICA A VIDA NÃO?
    VAMOS APRECIAR E APROVEITAR O MOMENTO SEJA ELE COM OU SEM VAGINA COBERTA OU DESCOBERTA.
    AFINAL DE CONTAS, CADA UM É CADA QUAL!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. "Cada um é cada qual"... e não tem nada igual, ainda bem! :D

      Excluir